​O Altar e o Cortiço

Autor: Eduardo Henrique da Silva

​1. A Espiritualidade do Escondimento e a Incompreensão Doméstica

​A perspectiva biográfica de Luciana Frassati

​Para compreender a densidade da santidade de Pier Giorgio, é indispensável recorrer aos relatos de sua irmã, Luciana Frassati, em obras fundamentais como Mio fratello Pier Giorgio: la carità e Mio fratello Pier Giorgio: la fede. Luciana nos oferece a chave de leitura para a maior das provações do jovem: o silêncio e a solidão espiritual dentro de seu próprio lar.

​A casa dos Frassati era marcada por uma profunda cisão. Seu pai, Alfredo Frassati, era um agnóstico convicto, liberal e focado na alta política e no jornalismo de vanguarda; sua mãe, Adelaide Ametis, uma pintora de renome, mantinha uma fé formal, rígida e burguesa. Luciana documenta que, para a mentalidade de seus pais, a piedade intensa de Pier Giorgio era vista como uma fraqueza de caráter ou um fanatismo vergonhoso.

​”Na nossa casa reinava o bem-estar, a inteligência, a política, a arte; mas não a oração. A oração de Pier Giorgio parecia uma anomalia, um elemento estranho que incomodava o ritmo sofisticado da família.”

Luciana Frassati

​Aprofundando essa dinâmica, Luciana revela que a caridade de Pier Giorgio precisava ser operada na mais estrita clandestinidade para evitar conflitos domésticos. Ele utilizava o dinheiro que recebia para suas despesas de estudante de Engenharia de Minas — profissão que escolheu expressamente para “poder servir a Cristo entre os mineiros”, como dizia — para comprar remédios, pagar aluguéis atrasados e comprar carvão para as famílias miseráveis de Turim. Quando o dinheiro acabou, ele empenhava seus próprios pertences (relógios, medalhas) ou voltava para casa a pé, correndo para não perder o horário das refeições, pois o atraso gerava severas punições paternas.

​A biografia escrita por sua irmã demonstra que a sua grande ascese não foi a busca por sacrifícios extraordinários, mas a paciência heroica em suportar a incompreensão daqueles que mais amava, sem jamais perder a alegria ou o respeito filial.

​2. A Mística Social e a Fé Encarnada

​A análise teológico-social de Eduardo Henrique da Silva

​Em seus artigos analíticos sobre o impacto social de Frassati, o pesquisador Eduardo Henrique da Silva situa o jovem turinense não como um devoto alienado, mas como um protagonista da Doutrina Social da Igreja (notadamente influenciado pela encíclica Rerum Novarum de Leão XIII). Silva aponta que Frassati compreendeu a caridade não como um ato de condescendência vertical (o rico que dá as sobras ao pobre), mas como uma exigência de justiça evangélica e de mística mútua.

​Silva destaca que a atuação de Pier Giorgio na Federação Universitária Católica Italiana (FUCI) e no Partido Popular Italiano (fundado pelo Pe. Luigi Sturzo) refletia uma clara consciência política. Ele combateu ativamente o avanço do fascismo nas ruas de Turim, chegando a ser preso em manifestações e agredido por milícias fascistas por defender a bandeira da Igreja e a liberdade dos operários.

​Eduardo Henrique da Silva conceitua a prática de Frassati a partir da “identificação sacramental com o pobre”. Para Pier Giorgio, o altar e a periferia estavam intrinsecamente ligados por uma dinâmica de reciprocidade:

  • A Mesa do Altar: De madrugada, na adoração noturna ou na missa diária, ele se alimentava da Eucaristia, absorvendo o Corpo de Cristo.
  • A Mesa da Pobreza: À tarde, nos cortiços de Turim, ele tocava as chagas desse mesmo Cristo na carne dos marginalizados.

​Silva argumenta que Frassati subverteu a lógica da assistência social de sua época. Ele não enviava doações; ele se doava. Ao visitar os doentes com tifo ou tuberculose, ele os abraçava, limpava suas feridas e os tratava com a reverência devida a um monarca. Em um de seus artigos, Silva resgata uma fala memorável de Pier Giorgio que resume essa teologia encarnada: “Ao redor dos enfermos, ao redor dos infelizes, eu vejo uma luz que nós não temos”.

​3. As Bem-aventuranças na Rocha

​O “Verso l’Alto” de São João Paulo II

​Para fundamentar ainda mais esta reflexão, é imperativo trazer o magistério de São João Paulo II, o Papa que o beatificou em 1990 e o batizou formalmente como o “Homem das Bem-aventuranças”.

​João Paulo II, que também era um amante das montanhas e da juventude, enxergou em Frassati o modelo perfeito do jovem moderno que não se deixa anestesiar pelo consumismo ou pelo niilismo. O Papa explicava que o famoso lema escrito por Pier Giorgio no verso de uma fotografia escalando o Monte Pollone — “Verso l’Alto” — continha todo o programa de sua existência. Não era um convite ao escapismo espiritual, mas um chamado a elevar a qualidade moral da vida cotidiana.

​As Bem-aventuranças em Frassati não eram um ideal teórico, mas virtudes vividas no concreto da existência:

  • Bem-aventurados os puros de coração: Mantinha uma castidade e uma retidão de intenção que contagiavam seus amigos no grupo I Tipi Loschi (Os Tipos Suspeitos), uma associação que ele fundou baseada na amizade autêntica, na oração e na alegria.
  • Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça: Sua busca pela santidade passava pela transformação das estruturas sociais, pela defesa dos direitos trabalhistas e pelo combate às desigualdades.
  • Bem-aventurados os misericordiosos: Sua própria morte, aos 24 anos, foi o selo de sua misericórdia. Ele contraiu poliomielite fulminante ao entrar em contato com os vírus das habitações insalubres que frequentava.

​Mesmo nos seus últimos dias de agonia, com o corpo paralisado pela doença, a preocupação de Pier Giorgio estava fora de si. Luciana Frassati relata que, com a mão semiparalisada, no dia anterior à sua morte, ele escreveu um bilhete dirigindo-se a um amigo para que entregasse uma injeção e o dinheiro do aluguel a um de seus protegidos.

​Conclusão

​O Estandarte da Juventude que Não Passa

​Unindo a memória afetiva de Luciana Frassati à análise estrutural de Eduardo Henrique da Silva, emerge uma santidade que interpela os cristãos. Pier Giorgio Frassati nos ensina que o Evangelho não é uma utopia distante, mas uma urgência para o presente.

​Ele não esperou a maturidade dos anos para amar radicalmente; gastou sua juventude com a pressa de quem sabia que o tempo de servir a Cristo nos irmãos é o agora. Que, ao celebrarmos a sua memória, possamos segurar a sua mão estendida e, inspirados por seu testemunho, caminhar firmes contra a correnteza do egoísmo, direcionando os nossos olhos para a miséria do mundo e os nossos corações, perenemente, Verso l’Alto.

​Fontes consultadas:

  • ​FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio: la carità. Milão: Vita e Pensiero.
  • ​FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio: la fede. Milão: Vita e Pensiero.
  • ​SILVA, Eduardo Henrique da. Artigos e ensaios biográficos sobre a mística social de Pier Giorgio Frassati.
  • ​JOÃO PAULO II. Homilia de Beatificação do Servo de Deus Pier Giorgio Frassati. Roma, 20 de maio de 1990.

Laboratório da Modernidade: Catolicismo, Liberalismo e o poder operário nas trajetórias de Frassati, Gobetti e Gramsci (1910-1920)

Autor: Eduardo Henrique da Silva

1. Introdução

Se a Turim das primeiras décadas do século XX era desenhada pelas fumaças das grandes metalúrgicas e pela efervescência das greves operárias, ela emergiu não apenas como o coração mecânico da Itália, mas como o seu mais febril laboratório político e cultural. A convergência histórica entre as trajetórias de Pier Giorgio Frassati, Piero Gobetti e Antonio Gramsci revela que, sob o teto cinzento das fábricas e o fumo das chaminés, processava-se uma das mais ricas disputas intelectuais da Europa. Longe de serem figuras isoladas em suas respectivas trincheiras doutrinárias, os três representaram respostas orgânicas, jovens e intransigentes à crise do Estado liberal tradicional e ao avanço avassalador do fascismo, usando a infraestrutura operária e urbana como espaço de intervenção.

2. Pier Giorgio Frassati: O Catolicismo Social na Turim das Chaminés

A figura de Pier Giorgio Frassati emerge como o elo de um catolicismo que se recusou a ficar confinado às sacristias. Filho da alta burguesia piemontesa — seu pai, Alfredo Frassati, era o influente fundador do jornal La Stampa —, Pier Giorgio escolheu caminhar na direção oposta ao isolamento de sua classe. Sua juventude, tragicamente interrompida aos 24 anos em 1925, foi uma resposta direta e encarnada às tensões sociais de uma cidade dividida entre o grande capital e o proletariado em revolta.
Frassati compreendeu cedo que a “questão operária” que tirava o sono dos industriais turinenses exigia mais do que o silêncio complacente da velha política. Matriculado no curso de Engenharia Mecânica na Escola Politécnica de Turim com o objetivo explícito de “trabalhar entre os mineiros e operários”, ele transformou sua fé em ação militante nas periferias mais vulneráveis da cidade. Era nos bairros operários, ali onde Maurizio Antonioli e Luigi Fiori identificaram a raiz do sindicalismo e da resistência anarquista, que Pier Giorgio passava seus dias.
A transição de Frassati para o universo dos trabalhadores se dava no corpo a corpo: ele abria mão de seus recursos familiares para garantir o sustento, medicamentos e carvão para as famílias dos operários afetados pelas crises de desemprego pós-Primeira Guerra Mundial. Longe de ser um assistencialismo passivo, sua ativismo na Conferência de São Vicente de Paulo e na Juventude Católica estava sintonizado com os ventos do catolicismo social da encíclica Rerum Novarum. Para Pier Giorgio, a miséria das habitações operárias de Turim não era uma fatalidade, mas uma injustiça que exigia uma tomada de posição política.
Essa imersão no cotidiano dos trabalhadores colocou Frassati em rota de colisão direta com a reação esquadrista que avançava sobre Turim a partir de 1922. Enquanto a burguesia tradicional flertava com Mussolini para conter o “perigo vermelho” das ocupações de fábrica, Frassati usava sua voz no Partido Popular Italiano (PPI) para denunciar a violência fascista. Ele entendia que o esmagamento das organizações operárias e a destruição dos círculos católicos eram duas faces da mesma engrenagem autoritária.
Sua presença nas manifestações de rua em Turim era marcada pela coragem física. Não foram poucas as vezes em que enfrentou a polícia e os esquadristas para defender o direito de organização dos trabalhadores católicos e estudantes da Federazione Universitaria Cattolica Italiana (FUCI). Quando a morte o levou em julho de 1925, vítima de uma poliomielite provavelmente contraída nos cortiços onde prestava assistência, a imagem que ficou gravada na história de Turim não foi a do filho do diretor do La Stampa, mas a do cortejo fúnebre monumental: milhares de operários, desempregados e famílias pobres tomaram as ruas da cidade para carregar o caixão daquele que, mesmo vindo do palácio, escolheu o chão de fábrica e a lama das periferias (FRASSATI, 2014).

3. Piero Gobetti: A Heresia Liberal e o Sangue da Modernidade

Se o catolicismo social de Pier Giorgio Frassati se traduzia nas ruas e nas periferias através da ação assistencial e militante, a juventude de Piero Gobetti — falecido tragicamente aos 24 anos, em 1926 — foi um vendaval de tinta, editoria e provocação política que desafiou tanto o conservadorismo liberal quanto a ascensão violenta do fascismo. Gobetti não vinha do chão de fábrica, mas das fileiras da Faculdade de Direito da Universidade de Turim. No entanto, o seu olhar de jovem intelectual não se voltou para os salões da burguesia tradicional, mas para os conselhos operários do Biennio Rosso (1919-1920). Onde os liberais tradicionais viam caos e ameaça à ordem pública, Gobetti enxergava o nascimento de uma nova aristocracia espiritual e política, capaz de renovar uma Itália carcomida pelo transformismo político.
Em sua obra-prima, La Rivoluzione Liberale, ele sintetizou essa leitura originalíssima ao apontar que a revolução industrial em Turim havia criado um povo de operários que, na luta cotidiana pela fábrica, aprendera a autogovernar-se, tornando o movimento operário o verdadeiro herdeiro do Risorgimento (GOBETTI, 2008). Para Gobetti, o verdadeiro liberalismo não era a manutenção de privilégios econômicos, mas a capacidade de um povo conquistar sua autonomia através da luta e do conflito criativo.
É sob essa ótica que se consolida sua surpreendente aproximação com Antonio Gramsci e o grupo do L’Ordine Nuovo. Como bem aponta o historiador Paolo Spriano (1977), essa aliança não era ideológica — já que Gobetti rechaçava o determinismo marxista —, mas sim um diagnóstico compartilhado: ambos entendiam que a renovação da Itália dependia da capacidade de autogoverno e da cultura das massas turinenses.
Se Maurizio Antonioli e Luigi Fiori documentam a resistência anarquista e sindical nos bairros operários como a Barriera di Milano, Gobetti fez das suas revistas — Energia Nova, La Rivoluzione Liberale e Il Baretti — autênticas trincheiras intelectuais contra o conformismo italiano. Ele transformou o ato de editar livros em uma forma de insurgência civil, conectando-se às redes de oposição que circulavam pela elite cultural da cidade. Essa intransigência intelectual fez dele um dos alvos mais odiados pelo regime de Benito Mussolini. As agressões fascistas foram implacáveis. Em 1924, após ser brutalmente espancado por esquadristas na saída de sua residência em Turim, sua saúde deteriorou-se rapidamente, culminando em seu exílio forçado e morte em Paris, em fevereiro de 1926. Norberto Bobbio (1986), refletindo sobre o impacto do jovem editor, define o legado de Gobetti como um “liberalismo do movimento”, uma heresia política que ensinou que a liberdade exige coragem, sacrifício e, acima de tudo, cultura.

4. Antonio Gramsci: O Cérebro de Turim e a Nova Ordem de Fábrica

Foi Antonio Gramsci quem deu à força trabalhadora de Turim uma teoria, uma direção e um órgão de expressão que mudaria a história da esquerda europeia. Chegado à cidade em 1911 vindo da Sardenha profunda, o jovem estudante de filologia encontrou na capital do Piemonte não apenas o rugido das turbinas industriais, mas o seu verdadeiro laboratório político. Turim não era apenas um cenário para Gramsci; era a “Petrogrado italiana”, o epicentro de onde deveria surgir uma nova civilização proletária.
Em maio de 1919, ao lado de Palmiro Togliatti, Angelo Tasca e Umberto Terracini, Gramsci fundou a revista L’Ordine Nuovo. O periódico não nasceu para ser apenas mais uma folha doutrinária, mas a voz teórica e prática daquilo que se passava no chão das oficinas da FIAT-Centro e da Lancia. Foi nas páginas dessa revista que tomou forma o conceito dos Conselhos de Fábrica (Consigli di Fabbrica), órgãos eleitos diretamente pelos operários que, na visão gramsciana, deveriam transcender os sindicatos tradicionais e se tornar as células de um novo Estado dos produtores (GRAMSCI, 1987).
Essa profunda imersão no cotidiano operário de Turim é o coração do seu pensamento no período do Biennio Rosso (1919-1920). Gramsci sintetizou o papel transformador da fábrica turinense ao defender que o Conselho de Fábrica transformava a oficina em um espaço de autogoverno, onde o trabalhador se descobria produtor, criador de história e cidadão de uma nova ordem. Essa perspectiva teórica dialoga diretamente com as pesquisas de Maurizio Antonioli sobre o sindicalismo revolucionário e as análises de Luigi Fiori sobre a radicalidade dos bairros industriais como San Donato e Barriera di Milano. Para Gramsci, a greve geral dos “ponteiros de metal” em abril de 1920 e a posterior ocupação das fábricas em setembro daquele ano não eram motins desordenados, mas o ponto de maturação máxima de uma classe que já sabia como gerir a produção sem a necessidade da burguesia.
A experiência dos conselhos de Turim, contudo, foi isolada pelo restante da Itália e pelo reformismo do Partido Socialista (PSI) — o que precipitaria a cisão de Livorno em 1921 e o nascimento do Partido Comunista da Itália (PCdI) sob a liderança do próprio Gramsci. O esmagamento do movimento operário turinense abriu as portas para a reação esquadrista. Como bem destaca o historiador Paolo Spriano (1967), a Turim de Gramsci foi o único momento em que a teoria marxista se fundiu de forma orgânica e em grande escala com a prática de uma classe operária altamente especializada. Anos mais tarde, encarcerado nas prisões de Mussolini, ao escrever os seus Cadernos do Cárcere, muitas das reflexões sobre a “hegemonia cultural” e o papel dos “intelectuais orgânicos” seriam devedoras diretas daquela juventude passada entre as fumaças, o suor e a inteligência técnica dos metalúrgicos de Turim.

5. Conclusão: Turim como Sentinela da Modernidade Italiana

A convergência histórica entre as trajetórias e os pensamentos de Pier Giorgio Frassati, Piero Gobetti e Antonio Gramsci revela que o amálgama que une essas três vozes aparentemente dissonantes é a centralidade que os três atribuíram ao novo sujeito social nascido da industrialização. Turim forced um diálogo inédito entre intelectuais católicos, liberais radicais e marxistas, todos unidos pelo diagnóstico comum de que a velha ordem giolittiana estava esgotada e que o fascismo era a “biografia da nação” — a expressão máxima das covardias e acomodações das elites tradicionais (BAGNOLI, 1984).
A tragédia que uniu o destino desses três jovens — a morte prematura de Frassati aos 24 anos consumido pela doença contraída nas periferias (1925), o exílio e a morte de Gobetti também aos 24 anos após o espancamento fascista (1926), e o lento martírio de Gramsci nos cárceres de Mussolini — sela o fim de um dos períodos mais luminosos da inteligência italiana. O esmagamento da Turim dos conselhos e das revistas de vanguarda abriu caminho para a noite totalitária, mas não apagou as sementes lançadas por aquela geração.
Como sintetiza Norberto Bobbio (1986) em seu balanço sobre a cultura piemontesa, o legado dessa tríade turinense reside na lição de que a liberdade, a justiça social e a renovação política não são concessões de governos, mas conquistas da cultura, da organização e do sacrifício coletivo. Ao unirmos o rigor documental de Paolo Spriano (1960) sobre o chão de fábrica à sensibilidade biográfica de Luciana Frassati (2014), compreendemos que a Turim dos anos 1920 legou à modernidade não apenas automóveis e patentes industriais, mas um modelo de resistência intelectual e compromisso ético que continuaria a iluminar a reconstrução democrática da Itália no pós-guerra.

Referências

ANTONIOLI, Maurizio. Azione direta e sindacalismo rivoluzionario in Italia. Manduria: Lacaita, 1990.
BAGNOLI, Paolo. Il problema Gobetti. Florença: Leo S. Olschki, 1984.
BAGNOLI, Paolo. Gramsci e i problemi da Torino. Milão: FrancoAngeli, 1989.
BEDESCHI, Lorenzo. Il modernismo cattolico: elementi d’una storia radicale. Milão: Feltrinelli, 1970.
BOBBIO, Norberto. Italia civile: Croce, Gobetti, Calogero, Capitini. Florença: Passigli, 1986.
BOBBIO, Norberto. Profilo ideologico del Novecento italiano. Turim: Einaudi, 1986.
CLARK, Martin. Antonio Gramsci and the Revolution that Failed. New Haven: Yale University Press, 1975.
FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio. Cantalupa (Torino): Effatà Editrice, 2014.
GOBETTI, Piero. La Rivoluzione Liberale: saggio sulla lotta politica in Italia. Turim: Einaudi, 2008.
GRAMSCI, Antonio. L’Ordine Nuovo: 1919-1920. Editado por Valentino Gerratana. Turim: Einaudi, 1987.
SPRIANO, Paolo. Torino operaia nella grande guerra (1914-1918). Turim: Einaudi, 1960.
SPRIANO, Paolo. Storia del Partito Comunista Italiano. Vol. I: Da Bordiga a Gramsci. Turim: Einaudi, 1967.
SPRIANO, Paolo. Gramsci e Gobetti. Turim: Einaudi, 1977.

A Mística dos Olhos Abertos: Frassati, La Pira e a Construção da “Cidade dos Homens” à Luz da Doutrina Social da Igreja

*Eduardo Henrique da Silva

Introdução

No cenário teológico contemporâneo, a atuação do cristão leigo no mundo frequentemente oscila entre dois extremos perigosos: o isolamento alienante dentro dos muros eclesiais e o secularismo ativista desprovido de transcendência. Para superar esse dualismo, a história e a teologia oferecem duas figuras proféticas do século XX: São Pier Giorgio Frassati (1901–1925), o “Homem das Bem-Aventuranças”, e o Servo de Deus Giorgio La Pira (1904–1977), o “prefeito santo” de Florença.

Embora tenham atuado em recortes cronológicos distintos da história italiana, ambos personificam o que a teologia contemporânea chama de “mística dos olhos abertos”: uma espiritualidade radicalmente contemplativa que deságua, de forma inevitável, na transformação da ordem social. Este artigo analisa como a Turim industrializada de Frassati e a proposta da “Cidade dos Homens” de La Pira anteciparam a eclesiologia do Concílio Vaticano II, fundamentando-se rigorosamente no Magistério Social da Igreja e servindo de referencial ético para os dias atuais.


1. A Turim de Frassati e a Florença de La Pira: As Cidades como Laboratórios da Fé

Para compreender o impacto social de Pier Giorgio Frassati, é fundamental reconstruir o ecossistema urbano de sua época. A Turim do início do século XX era o epicentro da industrialização italiana, marcada pelo crescimento vertiginoso da indústria automobilística (com a consolidação da FIAT) e pelo surgimento de uma massa operária submetida a jornadas extenuantes e habitações insalubres. Paralelamente, o ambiente universitário e político fervilhava com o colapso do Estado liberal e a ascensão violenta do esquadrismo fascista de Benito Mussolini.

Frassati, filho de Alfredo Frassati — influente senador e fundador do jornal La Stampa —, recusou os privilégios de sua casta burguesa. Ele descia diariamente aos cortiços mais degradados de Turim para socorrer desempregados e enfermos através das Conferências de São Vicente de Paulo. Para Pier Giorgio, a cidade industrial não era um aglomerado neutro de fábricas, mas um espaço teológico onde Cristo sofria nos membros dos marginalizados.

Dessa mesma intuição teológica brotou, décadas mais tarde, a ação política de Giorgio La Pira em Florença. Como deputado constituinte e, posteriormente, prefeito da cidade toscana nas décadas de 1950 e 1960, La Pira formulou o conceito teológico-político da “Cidade dos Homens”. Influenciado pelo tomismo e pelo humanismo cristão, ele defendia que as estruturas urbanas (habitação, emprego, hospitais) possuíam uma dimensão intrinsecamente espiritual e humana.

Para La Pira, a cidade não era uma mera máquina econômica, mas uma “antessala da Jerusalém Celeste”, um espaço sagrado onde o direito à moradia e ao trabalho eram precondições para que a dignidade da pessoa humana pudesse desabrochar. Ambos compreenderam que a fé cristã exigia um “sacerdócio civil” capaz de humanizar o concreto das metrópoles.


2. O Papel do Leigo: A Antecipação Profética do Vaticano II

A atuação de Frassati e La Pira antecipou em décadas a eclesiologia renovada pelo Concílio Vaticano II (1962–1965). Antes do evento conciliar, vigorava uma visão piramidal de Igreja, que relegava o leigo a uma posição passiva de mero executor das diretrizes do clero.

A Constituição Dogmática Lumen Gentium (LG) e o Decreto Apostolicam Actuositatem (AA) alteraram radicalmente esse paradigma ao definir a índole secular como específica dos leigos:

“Aos leigos compete, por vocação própria, procurar o Reino de Deus exercendo funções temporais e ordenando-as segundo Deus. […] A eles pertence, de modo especial, iluminar e ordenar de tal modo as realidades temporais […] que progridam constantemente segundo Cristo” (LG, n. 31).

Frassati e a Santidade na Secularidade

Pier Giorgio não buscou o claustro ou o sacerdócio ordenado; santificou-se nas estruturas do mundo. Como estudante de Engenharia de Minas, ele escolheu essa profissão com o objetivo explícito de atuar junto aos mineiros, uma das classes mais exploradas. Sua militância na Federação Universitária Católica Italiana (FUCI) e no Partido Popular Italiano (PPI), de orientação democrata-cristã, demonstra a aplicação prática do que o Vaticano II chamaria de “coerência de vida” (AA, n. 4), recusando a fratura entre a fé professada e a vida quotidiana.

La Pira e a Política como Alta Caridade

Giorgio La Pira encarnou o magistério conciliar ao assumir a administração pública como um dever de consciência. Quando requisitava vilas privadas vazias para abrigar famílias desalojadas ou quando intervinha diretamente contra demissões em massa nas fábricas (como no célebre caso da fábrica Pignone), La Pira aplicava o princípio conciliar de que os leigos devem infundir o espírito cristão na mentalidade, nos costumes e nas leis das comunidades (AA, n. 7). Para ele, a política era a expressão social da caridade evangélica.


3. Fundamentação Teológica nas Encíclicas Sociais

A práxis social de Frassati e La Pira não nascia de ideologias partidárias imanentes (sejam liberais ou marxistas), mas estava profundamente ancorada na Doutrina Social da Igreja (DSI). Suas ações encontram fundamentação direta em três eixos magistrais:

A Dignidade do Trabalhador e a Destinação Universal dos Bens

Pier Giorgio formou sua consciência social a partir da leitura direta da Rerum Novarum (RN) (1891), do Papa Leão XIII. A defesa intransigente do salário justo, do direito de associação dos operários e da função social da propriedade privada (RN, n. 35-36) justificava o porquê de Frassati doar suas roupas e sua mesada aos pobres de Turim. Ele afirmava que não estava fazendo “esmola”, mas devolvendo aos pobres o que lhes pertencia por direito de justiça, antecipando o princípio da destinação universal dos bens consolidado no Compêndio da DSI (n. 171).

O Princípio da Subsidiariedade e a Primazia do Bem Comum

A atuação de Giorgio La Pira em Florença alinhava-se perfeitamente à encíclica Quadragesimo Anno (QA) (1931), do Papa Pio XI. A Quadragesimo Anno introduziu formalmente o princípio da subsidiariedade (QA, n. 79), determinando que o Estado deve intervir quando os corpos intermediários ou a iniciativa privada não conseguem garantir as condições de subsistência dos cidadãos.

Ao utilizar o poder municipal para garantir habitação e trabalho, La Pira defendia que o livre mercado devia submeter-se às exigências da justiça social e do bem comum (QA, n. 88).

O Humanismo Integral e o Desenvolvimento dos Povos

A visão de “Cidade dos Homens” de La Pira e o serviço desinteressado de Frassati convergem para o conceito de humanismo integral cunhado pelo filósofo Jacques Maritain (de quem La Pira era amigo próximo) e posteriormente absorvido pelo Papa São Paulo VI na encíclica Populorum Progressio (PP) (1967).

A encíclica ensina que o desenvolvimento não se reduz ao mero crescimento econômico, mas deve promover “o homem todo e todos os homens” (PP, n. 14). A articulação que ambos faziam entre cultura, esporte, oração e política visava exatamente a esse desenvolvimento pleno.


4. Paralelo Histórico: As Crises do Século XX e os Desafios Contemporâneos

A transposição dos contextos históricos de Frassati e La Pira para o século XXI revela que as estruturas de injustiça social se sofisticaram, mas mantêm a mesma raiz antropológica deficitária:

  • Da Exploração Industrial à Precarização Digital: Se Frassati enfrentava a miséria material dos cortiços de Turim provocada pela industrialização desenfreada, o leigo de hoje depara-se com a precarização do trabalho (fenômeno da uberização), o desemprego estrutural e a exclusão habitacional nas periferias globais. A denúncia do Papa Francisco na Evangelii Gaudium (EG) contra uma “economia da exclusão e da iniqüidade” (EG, n. 53) ressoa como a atualização direta dos combates de Frassati.
  • Do Fascismo às Polarizações Ideológicas: Frassati sofreu agressões físicas de militantes fascistas por defender os ideais católicos; La Pira governou sob o fogo cruzado da Guerra Fria entre o anticomunismo radical e o marxismo. Nos dias de hoje, o leigo é chamado a atuar em democracias fragilizadas por discursos de ódio e polarizações estéreis. A resposta contemporânea a esse cenário encontra-se na encíclica Fratelli Tutti (FT) (2020), onde o Papa Francisco resgata o ideal de La Pira ao conclamar a reabilitação da “política melhor” orientada para a fraternidade universal e a amizade social (FT, n. 154).

Conclusão

São Pier Giorgio Frassati e o Servo de Deus Giorgio La Pira demonstraram de forma inequívoca que a mística cristã não é uma fuga do mundo, mas um mergulho profundo nas suas contradições. Eles não enxergaram a cidade terrena como um território perdido para o secularismo, mas como o espaço exato de manifestação do Reino de Deus por meio da justiça social e da caridade política.

O legado de ambos permanece como um farol para o laicato contemporâneo. Eles provam que a Doutrina Social da Igreja não é um compêndio de teorias abstratas, mas um mapa de ação encarnada. Seja nos ambientes universitários, no mundo corporativo ou nos parlamentos, o chamado do leigo do século XXI continua sendo o mesmo de Frassati: caminhar firmemente pelos vales da história humana com os olhos permanentemente fixos “Verso l’Alto”.


Bibliografia

I. Documentos do Magistério da Igreja (Fontes Primárias)

  • CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja. Roma, 1964. Disponível em: Vatican.va.
  • CONCÍLIO VATICANO II. Decreto Apostolicam Actuositatem sobre o Apostolado dos Leigos. Roma, 1965. Disponível em: Vatican.va.
  • FRANCISCO, Papa. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: Sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. Roma: Typis Vaticanis, 2013.
  • FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Fratelli Tutti: Sobre a fraternidade e a amizade social. Roma: Typis Vaticanis, 2020.
  • LEÃO XIII, Papa. Carta Encíclica Rerum Novarum: Sobre a condição dos operários. Roma, 1891. Disponível em: Vatican.va.
  • PAULO VI, Papa. Carta Encíclica Populorum Progressio: Sobre o desenvolvimento dos povos. Roma, 1967. Disponível em: Vatican.va.
  • PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2005.
  • PIO XI, Papa. Carta Encíclica Quadragesimo Anno: Sobre a restauração da ordem social. Roma, 1931. Disponível em: Vatican.va.

II. Obras sobre Pier Giorgio Frassati e Giorgio La Pira (Fontes Secundárias)

  • BEDESCHI, Lorenzo. Pier Giorgio Frassati: Il giovane delle otto beatitudini. Milão: San Paolo, 2001.
  • FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio: La fede. Bolonha: Il Mulino, 2004.
  • LA PIRA, Giorgio. La Città dei Uomini. Florença: Cultura, 1960.
  • MARITAIN, Jacques. Humanismo Integral: Uma visão nova da ordem cristã. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
  • SOCIETÀ EDITRICE FIORENTINA. Giorgio La Pira e la vocação social do leigo. Florença: SEF, 2012.

Pier Giorgio Frassati: A Santidade na Arena Política

Eduardo Henrique da Silva*

​Para compreender a santidade de Pier Giorgio Frassati (1901–1925), é preciso desarmar a imagem açucarada de uma piedade puramente intimista. Como bem destaca o jornalista e historiador Luca Rolandi em sua abordagem biográfica (ROLANDI, 2020), Frassati viveu em um dos períodos mais complexos e violentos da Itália moderna: o primeiro pós-guerra, o “biênio vermelho” (biennio rosso) e a ascensão fulminante do fascismo.

​Nesse cenário, Pier Giorgio não se refugiou nas sacristias. Ele entendia a política e o empenho social não como apêndices de sua fé, mas como a expressão máxima dela.

​Abaixo, cruzamos as perspectivas de sua irmã, Luciana Frassati, de grandes nomes do laicato católico italiano como Giorgio La Pira e Giuseppe Lazzati, e a análise contextual de Luca Rolandi para traçar o perfil desse jovem que fez da caridade a sua principal ferramenta de ação civil.

​1. O Olhar Íntimo e Histórico: Luciana Frassati

​Ninguém conheceu a alma e as contradições do ambiente em que Pier Giorgio cresceu tão bem quanto sua irmã, Luciana Frassati. Em suas ricas memórias biográficas (FRASSATI, 1953), Luciana revela que o compromisso de Pier Giorgio com os pobres e com a justiça social nascia em um ambiente familiar paradoxal: o pai, Alfredo Frassati (fundador do jornal La Stampa e senador liberal), era um homem agnóstico e de mentalidade burguesa, que muitas vezes via com ceticismo a “exagerada” devoção do filho.

​Luciana relata que Pier Giorgio subvertia a lógica de sua própria classe social. Ele utilizava a sua mesada e até as passagens de bonde para ajudar as famílias operárias de Turim. Para a irmã, a política de Pier Giorgio não era ideológica, mas humana; ele via na militância uma forma direta de aliviar o sofrimento da classe trabalhadora, recusando-se a fechar os olhos para a miséria que a burguesia de Turim preferia ignorar.

​2. A Política como “Alta Caridade”: Luca Rolandi

​Ecoando as palavras de Pio XI (e mais tarde de Paulo VI), que definiram a política como “a forma mais alta de caridade”, Luca Rolandi situa o jovem Frassati no olho do furacão histórico entre 1921 e 1925 (ROLANDI, 2020). Conforme Rolandi descreve, Pier Giorgio foi um militante convicto e operoso.

​Ele não dividia seu tempo entre o altar e a sede do partido; sua ação era unificada. Frassati engajou-se profundamente na FUCI (Federação Universitária Católica Italiana) e no Partido Popular Italiano (PPI), fundado pelo sacerdote Don Luigi Sturzo. Em Turim, uma cidade operária em efervescência e sob a ameaça do esquadrismo fascista, Pier Giorgio colocou o corpo em risco. Rolandi recorda que ele participava de manifestações operárias, defendia a liberdade de imprensa e peitava a violência dos “camisas negras” nas ruas. Para Frassati, aceitar o fascismo era trair o Evangelho, pois o totalitarismo negava a dignidade intrínseca do ser humano.

​3. O Modelo do Cristão na Cidade: Giuseppe Lazzati

​Giuseppe Lazzati, um dos grandes intelectuais do catolicismo democrático italiano e também um leigo engajado na política do pós-guerra, via em Pier Giorgio o protótipo do “cristão na cidade” (LAZZATI, 1984). Lazzati defendia que o leigo católico não deve “clericalizar” a política, mas sim “laicizar” o Evangelho, ou seja, traduzir os valores cristãos em estruturas democráticas, leis justas e instituições solidárias.

​Na análise que se faz a partir do legado de Lazzati, Frassati preenche perfeitamente esse requisito. Ele não queria um Estado teocrático; ele queria um Estado justo. Ao atuar no Partido Popular, Pier Giorgio buscava reformas estruturais: justiça social para os trabalhadores, direito à educação e liberdade sindical. Ele entendia, como Lazzati formularia anos mais tarde, que a fé que não se torna cultura e ação social é uma fé morta.

​4. A Mística da Ação: Giorgio La Pira

​Se Lazzati fornece a estrutura conceitual do leigo na política, Giorgio La Pira — o “prefeito santo” de Florença — fornece a chave mística que une Frassati à ação social (LA PIRA, 1978). La Pira, que também fez da política um sacerdócio civil, via em Pier Giorgio um irmão de alma.

​Para La Pira, a política só faz sentido se partir de uma profunda contemplação de Deus que se desdobra no amor aos mais vulneráveis. Frassati alimentava seu empenho político na comunhão diária e na adoração eucarística nas madrugadas. Era essa recarga espiritual que lhe dava forças para, logo em seguida, carregar sacos de carvão nas favelas de Turim ou discursar contra a opressão política. La Pira e Frassati personificam a “mística dos olhos abertos”: a oração que não aliena, mas que empurra o crente para o meio do povo.

​Conclusão: Um Legado Atual

​A análise historiográfica de Luca Rolandi nos lembra da importância de “reportar Frassati ao seu contexto histórico, além do mito”. Ao ser canonizado, Pier Giorgio Frassati não deve ser lembrado apenas como o “jovem das montanhas” ou o “santo desportista”.

​A análise cruzada de Luciana Frassati, Giorgio La Pira, Giuseppe Lazzati e Luca Rolandi nos entrega o retrato de um jovem revolucionário no sentido mais puro do termo. Em uma época em que a política frequentemente se esvazia de ética e o individualismo isola as pessoas, Frassati permanece como um farol aceso: a prova viva de que a fé cristã, quando vivida radicalmente, é uma força política e social capaz de desafiar ditaduras, derrubar muros de privilégios e construir a civilização do amor.

​Fontes e Referências Bibliográficas

  • FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio: La Fede. Bolonha: Il Mulino, 1953. (Obra biográfica de referência onde a irmã relata a vida íntima e os embates familiares de Pier Giorgio).
  • LA PIRA, Giorgio. La secolarità cristiana: il laicato nella Chiesa e no mondo. Milão: Vita e Pensiero, 1978. (Reflexões sobre o papel do cristão na transformação social e política, dialogando com o testemunho de Frassati).
  • LAZZATI, Giuseppe. La città dell’uomo: per una politica a misura d’uomo. Roma: Ave, 1984. (Obra fundamental que conceitua o “cristão na cidade” e a autonomia teológica do leigo na arena pública).
  • ROLANDI, Luca. Pier Giorgio Frassati: Il giovane delle otto beatitudini. [Biografia referenciada no material/capa do livro analisado]. Turim: Edizioni Effatà, 2020. (Texto base contextualizador do cenário político do pós-guerra e do combate ao fascismo).

* Responsável pelo site no Brasil.

Pier Giorgio Frassati e a Vocação do Leigo Dominicano

​Introdução: O Jovem que Uniu Montanha, Oração e Serviço

​Na Turim do início do século XX — turbulenta pelas transformações industriais e pelas tensões do pós-Primeira Guerra —, a figura de Pier Giorgio Frassati (1901–1925) destaca-se não por um isolamento contemplativo, mas por uma imersão radical no mundo. Esportista vibrante, estudante de Engenharia de Minas e militante social, Pier Giorgio viveu apenas 24 anos. Contudo, nesses poucos anos, encarnou com impressionante profundidade a vocação do leigo dominicano.

​A análise de sua vida através das biografias pioneiras de Don Antonio Cojazzi (Pier Giorgio Frassati, 1928), dos relatos íntimos de sua irmã Luciana Frassati (I giorni della sua vita e Mio fratello Pier Giorgio), do estudo histórico-crítico de Carla Casalegno (Pier Giorgio Frassati, 1988) e da obra comemorativa Beato Pier Giorgio Frassati, terziario domenicano (Edizioni Studio Domenicano, 1991) revela um jovem cuja santidade não foi um acidente de temperamento, mas o fruto de uma rigorosa escola espiritual: o carisma de São Domingos de Gusmão.

​1. A Ordem Dominicana e a Família Dominicana

​A Ordem dos Pregadores (Ordo Praedicatorum — OP) foi fundada por São Domingos de Gusmão no início do século XIII (aprovada pelo Papa Honório III em 1216) com um propósito revolucionário para a época: a defesa da fé católica através do estudo rigoroso, da pregação itinerante e da vivência da pobreza evangélica. Sob o lema Veritas (Verdade) e a máxima tomista Contemplata aliis tradere (“Contemplar e transmitir aos outros os frutos da contemplação”), a Ordem nasceu para responder às necessidades de um mundo em transformação urbana e intelectual.

​A Família Dominicana articula-se em um corpo orgânico que reúne diferentes estados de vida sob o mesmo carisma e regra fundamental:

  • A Primeira Ordem: Os frades (sacerdotes e cooperadores), dedicados à pregação, ao estudo e ao ministério sacerdotal.
  • A Segunda Ordem: As Monjas da Ordem dos Pregadores (vida contemplativa e clausura), cuja oração silenciosa e entrega ao mistério de Deus são a fonte e o coração oculto da eficácia apostólica de toda a Ordem.
  • A Terceira Ordem (Leigos e Institutos de Vida Consagrada):
    • Irmãs Apostólicas: Congregações religiosas femininas dedicadas às obras de misericórdia, ensino, saúde e missões.
    • Fraternidades Leigas Dominicanas (antiga Ordem Terceira Secular): Homens e mulheres que, vivendo em suas famílias e profissões seculares, filiam-se à Ordem por meio de uma promessa formal, assumindo a regra dominicana adaptada ao estado laical.

​Como destaca o estudo comemorativo (Edizioni Studio Domenicano, 1991), ser um “terceiro dominicano” não significa ser um membro secundário, mas sim estender a pregação da Verdade aos ambientes onde nem os frades nem as monjas conseguem chegar: as universidades, os locais de trabalho e a vida pública.

​2. Pier Giorgio e São Domingos: A Escolha de “Fra Girolamo”

​Em 28 de maio de 1922, na Igreja de San Domenico, em Turim, Pier Giorgio veste o hábito da Ordem Terceira Dominicana, emitindo as promessas solenes no ano seguinte. Na recepção do hábito, adota o nome de Fra Girolamo, em homenagem ao reformador dominicano do século XV, Girolamo Savonarola — escolha que revela a determinação moral de Pier Giorgio em combater a corrupção e defender a Verdade com coragem profética.

“Amo com todo o meu coração São Domingos, que fundou uma Ordem destinada a iluminar a inteligência e defender a fé.”

(“Amo con tutto il cuore San Domenico, che ha fondato un Ordine destinato a illuminare l’intelligenza e a difendere la fede.”)

Pier Giorgio Frassati

​A afinidade entre Pier Giorgio e São Domingos manifestava-se em traços marcantes:

  1. A Paixão pela Verdade (Veritas): Assim como Domingos combatia as heresias de seu tempo com o estudo fundamentado na caridade, Pier Giorgio cursou Engenharia de Minas para “servir a Cristo entre os mineiros”, convencido de que a técnica e a ciência deveriam ser orientadas para a dignidade da pessoa humana.
  2. O Zelo Social e Apostólico: São Domingos vendia seus manuscritos preciosos para alimentar os famintos de Palência dizendo: “Não posso estudar em peles mortas enquanto homens vivos morrem de fome”. De forma análoga, Don Cojazzi e Luciana Frassati relatam inúmeros episódios em que Pier Giorgio doava suas passagens de bonde, seu casaco e o dinheiro do pão aos pobres de Turim, regressando a pé e em jejum para casa.

​3. Testemunhos e a Vida de Oração: A Fonte Invisível da Ação

​A intensa atividade de Pier Giorgio — membro da Ação Católica, da FUCI (Federazione Universitaria Cattolica Italiana), de partidos políticos democrata-cristãos e da Sociedade de São Vicente de Paulo — encontrava seu motor em uma profunda vida de oração.

​Como documenta Carla Casalegno, a espiritualidade de Frassati apoiava-se em quatro pilares dominicanos:

  • A Eucaristia Diária: Em uma época em que a comunhão diária para leigos ainda encontrava resistências culturais, Pier Giorgio buscava a Eucaristia com fervor quase obstinado. As vigílias de adoração noturna na Igreja da Consolata ou junto aos estudantes da FUCI transformavam sua alma.
  • A Oração do Terço: Trazia sempre o rosário no bolso. Luciana Frassati relata que não era raro encontrá-lo ajoelhado ao lado de sua cama, tarde da noite, adormecido com o rosário nas mãos após longas horas de estudo e visitas aos pobres.
  • A Leitura das Escrituras e de São Tomás de Aquino: Como leigo dominicano, nutria sua inteligência com as Cartas de São Paulo, a Suma Teológica e os escritos de Santa Catarina de Sena.
  • A Liturgia das Horas: Recitava o Ofício Parvo da Virgem Maria e passagens do Breviário, associando-se diariamente à oração oficial da Igreja.

​Os testemunhos recolhidos no volume do Studio Domenicano (1991) mostram que seus amigos de montanhismo e universidade não o viam como um jovem “carola” ou separado do mundo, mas como uma força de alegria contagiante. Suas célebres palavras — “Se você tiver Deus no centro de todos os seus atos, alcançará o fim” — eram o espelho de sua interioridade.

​4. O Leigo Dominicano no Tempo de Pier Giorgio: Contexto Histórico e Político

​Compreender o laicato dominicano nas décadas de 1910 e 1920 exige analisar o cenário sócio-político da Itália entre a consolidação do regime fascista de Benito Mussolini e a efervescência do movimento católico.

​Nesse período, o leigo dominicano enfrentava um duplo desafio:

  1. Clericalismo Externo e Interno: O papel do leigo na Igreja pré-conciliar era frequentemente reduzido à passividade (“rezar, pagar e obedecer”). Contudo, a Ordem Terceira Dominicana oferecia aos leigos uma formação teológica densa que os impulsionava à responsabilidade direta na sociedade civil.
  2. A Ameaça Fascista: O regime de Mussolini buscava monopolizar a formação dos jovens e esmagar a autonomia das associações católicas. Pier Giorgio usou a Ordem Terceira e a FUCI como trincheiras de resistência moral e intelectual. Ele enfrentou abertamente agressões de esquadrões fascistas em procissões e manifestações em Roma e Turim, recusando-se a calar diante do totalitarismo.

​Don Cojazzi destaca que Pier Giorgio entendia a Ordem Terceira não como uma confraria puramente devocional, mas como um compromisso de transformação da ordem temporal. O leigo dominicano de seu tempo era chamado a testemunhar a Verdade em um ambiente marcado pela secularização, pelo avanço do materialismo e pela supressão da liberdade política.

​5. Antecipação do Vaticano II: A Teologia do Laicato em Frassati

​A grande relevância teológica e histórica de Pier Giorgio Frassati reside no fato de ter vivido, na década de 1920, aquilo que o Sexto Capítulo da Constituição Dogmática Lumen Gentium e o Decreto Apostolicam Actuositatem do Concílio Vaticano II formulariam magistralmente quarenta anos mais tarde.

​A Vocação Universal à Santidade (Lumen Gentium, Cap. IV e V)

​O Vaticano II superou a visão de que a santidade é privilégio do estado de vida religioso ou sacerdotal. Pier Giorgio demonstrou que a santidade é plenamente realizável na condição laical: amando os esportes, estudando na universidade, rindo com os amigos, apaixonando-se e engajando-se na política.

​A Mútua Inseparabilidade entre Fazer e Ser (Apostolicam Actuositatem)

​O decreto conciliar Apostolicam Actuositatem afirma que os leigos exercem seu apostolado no mundo como “fermento” na massa (AA, 2), alimentados pela vida sacramental. Frassati não “fazia” caridade como uma tarefa assistencialista destacada de sua espiritualidade; sua caridade era a transbordação direta de seu encontro diário com o Cristo Eucarístico.

​Quando seus companheiros da Sociedade de São Vicente de Paulo e da FUCI lhe perguntavam como conseguia suportar a miséria extrema e o odor dos cortiços de Turim sem hesitação, Pier Giorgio explicava o segredo de sua força:

“Jesus me visita todas as manhãs na Comunhão; eu Lhe retribuo do modo miserável que posso, visitando os pobres.”

(“Gesù mi fa visita ogni mattina nella Comunione, io la restituisco nel misero modo che posso, visitando i poveri.”)

​Em sua morte prematura, aos 24 anos — vítima de uma poliomielite fulminante contraída justamente nos bairros miseráveis de Turim enquanto servia aos doentes —, a multidão de pobres que lotou as ruas para seu funeral revelou à sua abastada e liberal família quem realmente era o jovem Pier Giorgio: um apóstolo silencioso da Verdade e da Misericórdia, cuja ação no mundo fluía da contemplação do Altar.

​Conclusão: A Atualidade Profética do Leigo Dominicano

​A trajetória de Pier Giorgio Frassati — iluminada pelas biografias de Cojazzi, Luciana Frassati e Casalegno, bem como pelos documentos da Tradição Dominicana — oferece uma resposta contundente às crises do laicato contemporâneo.

​Longe de uma piedade desencarnada ou de um ativismo sociológico sem raízes espirituais, Pier Giorgio sintetizou de forma harmoniosa o lema dominicano: a contemplação na ação. Sua vida demonstra que a Ordem Terceira de São Domingos não é uma refúgio do mundo, mas uma verdadeira escola de santidade secular, capacitando o leigo para atuar na política, na cultura e no serviço aos marginalizados com inteligência e ardor evangélico.

​Sua figura antecipou o grande ensinamento de São João Paulo II na exortação Christifideles Laici (1988): os leigos não são meros colaboradores da hierarquia, mas sujeitos ativos da missão da Igreja. Como “Fra Girolamo”, Pier Giorgio Frassati continua a apontar para os jovens e leigos de todas as épocas o único caminho válido para transformar a cultura e a sociedade: o testemunho corajoso da Verdade infundido pelo amor aos mais vulneráveis. Verso l’alto — para o alto — na fé e no mundo.

​Referências e Bibliografia Consultada

  • CASALEGNO, Carla. Pier Giorgio Frassati. Milano: Edizioni Paoline, 1988.
  • COJAZZI, Antonio (Don). Pier Giorgio Frassati. Torino: Società Editrice Internazionale (SEI), 1928.
  • EDICTIONI STUDIO DOMENICANO. Beato Pier Giorgio Frassati, terziario domenicano. Bologna: Edizioni Studio Domenicano (ESD), 1991.
  • FRASSATI, Luciana. I giorni della sua vita: Pier Giorgio Frassati. Milano: Studium, 1975.
  • FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio: La carità. Bologna: Edizioni Studio Domenicano, 1990.
  • FRASSATI, Pier Giorgio. Lettere (1907-1925). Organizado por Luciana Frassati. Roma: Edizioni Studium, 1995.
  • VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja. Roma, 1964.
  • VATICANO II. Decreto Apostolicam Actuositatem sobre o Apostolado dos Leigos. Roma, 1965.

Pier Giorgio Frassati e a Santidade do Cotidiano

A trajetória de Pier Giorgio Frassati (1901–1925), jovem turinês beatificado por João Paulo II em 1990 e canonizado por Leão XIV em 2025, oferece um estudo profundo sobre a santidade vivenciada dentro do ambiente doméstico. Exaustivamente documentada na Positio Super Virtutibus (Volumes I e II, publicados pela Tipografia Guerra em Roma), a dinâmica do lar dos Frassati revela como Pier Giorgio respondeu com humildade, amor heróico e renúncia em meio a um ambiente marcado pela austeridade, incompreensão religiosa e profundas tensões conjugais.

1. O Cenário Familiar: Uma Burguesia Austera

A família Frassati ocupava o topo da sociedade turinesa e italiana do início do século XX, mas a atmosfera doméstica era pautada por um rigor exemplar e uma marcante reserva afetiva.

  • Austeridade e Disciplina: Apesar da abastança financeira, a educação de Pier Giorgio e de sua irmã Luciana primava pela modéstia rigorosa. Horários, deveres e conduta social eram controlados com severidade.
  • O Clima Doméstico: Os depoimentos reunidos na Positio apontam que o casamento dos pais atravessava uma crise profunda, resultando em um ambiente doméstico frio e tenso, onde manifestações de afeto eram raras e o diálogo, muitas vezes, difícil.

2. A Relação com o Pai: Obediência entre Incompreensões

Para Alfredo Frassati, o filho primogênito representou, durante quase toda a sua vida, um enigma e uma aparente frustração. Alfredo esperava que Pier Giorgio seguisse uma carreira diplomática de destaque ou assumisse a direção do jornal La Stampa.

Conforme registrado nos depoimentos da Positio:

  • Exigências Acadêmicas: Pier Giorgio enfrentava dificuldades em disciplinas humanas, optando mais tarde pelo curso de Engenharia de Minas para “servir a Cristo entre os operários”. O pai interpretava o ritmo dos estudos e a constante ausência do filho — dedicado às obras de caridade — como falta de ambição ou desleixo.
  • Respeito Sem Amargura: Pier Giorgio jamais respondeu às duras repreensões paternas com rebeldia ou ressentimento. Testemunhas declaram que ele aceitava as admoestações com silêncio, humildade e um sorriso afável.
  • Divergências Políticas: Embora discordasse do alinhamento político do pai em certos momentos de ascensão do fascismo, Pier Giorgio manteve uma reverência filial irrestrita, jamais deshonrando o nome da família.

3. A Relação com a Mãe: Amor Prático e Aceitação

A relação com a mãe, Adelaide Ametis, era pautada pelo cumprimento do dever e pelo respeito, embora ela dificilmente compreendesse a radicalidade espiritual do filho.

  • Falta de Compreensão da Caridade: Adelaide frequentemente o repreendia por atrasos nas refeições ou por se apresentar com roupas gastas, desconhecendo que Pier Giorgio doava seus pertences, sapatos e o dinheiro de suas passagens aos necessitados de Turim.
  • Submissão e Delicadeza: Para não desgostar a mãe, Pier Giorgio buscava ajustar sua intensa vida de oração e caridade à rotina da casa. Para participar da Missa diária e realizar visitas aos enfermos da Sociedade de São Vicente de Paulo, madrugava e organizava seus horários em segredo.

4. O Vínculo com Luciana: Aliança e Sacrifício

Luciana Frassati desempenhou um papel central na vida do irmão. Separados por apenas 17 meses, os dois formavam um núcleo de apoio mútuo no lar.

“Nós éramos dois, mas tínhamos um só coração.”Luciana Frassati (Depoimento na Positio Super Virtutibus)

A Positio detalha dois momentos vitais dessa relação:

  1. A Renúncia Amorosa: Pier Giorgio apaixonou-se por Laura Hidalgo, jovem de condição social modesta. Sabendo que o relacionamento enfrentaria oposição irredutível dos pais — o que poderia fragmentar de vez um matrimônio já fragilizado —, renunciou ao amor humano para preservar a paz familiar, sofrendo a dor em silêncio.
  2. A Solidão Final: O casamento de Luciana com o diplomata Jan Gawroński e sua subsequente mudança para o exterior deixaram Pier Giorgio profundamente solitário no ambiente doméstico em seu último ano de vida.

5. O Impacto da Morte e a Redenção Familiar

O capítulo final da Positio sobre o ambiente familiar descreve o desfecho da vida de Pier Giorgio. Em junho de 1925, enquanto sua avó materna agonizava na casa da família, Pier Giorgio contraiu poliomielite fulminante nos cortiços de Turim.

  • O Silêncio Heróico: Para não desviar a atenção dos cuidados dedicados à avó e não preocupar os pais, Pier Giorgio escondeu as dores paralisantes que sentia. Quando a gravidade foi percebida, o quadro era irreversível.
  • A Revelação no Funeral: O cortejo fúnebre reuniu milhares de pobres, doentes e marginalizados da cidade, para perplexidade dos pais. Foi apenas no funeral que Alfredo e Adelaide compreenderam a grandeza moral e espiritual do filho.

A morte de Pier Giorgio atuou como um divisor de águas: Alfredo Frassati reaproximou-se da fé católica nos anos posteriores, e o testemunho do jovem transformou a espiritualidade e a memória de toda a família.

Biografias dos Integrantes da Família Frassati

Pier Giorgio Frassati (1901–1925)

Nascido em Turim em 6 de abril de 1901, Pier Giorgio cresceu em uma família da alta burguesia italiana. Estudou Engenharia de Minas no Politécnico de Turim, motivado pelo desejo de trabalhar ao lado dos operários. Ingressou na Ação Católica, na Federação dos Universitários Católicos Italianos (FUCI), na Ordem Terceira de São Domingos e na Sociedade de São Vicente de Paulo. Caracterizado por sua alegria contagiante, paixão pelo alpinismo e profunda vida de oração, dedicou sua juventude ao serviço dos pobres e doentes de Turim. Faleceu precocemente em 4 de julho de 1925, aos 24 anos, vítima de poliomielite fulminante. Foi beatificado pelo Papa João Paulo II em 20 de maio de 1990 e canonizado pelo Papa Leão XIV em 7 de setembro de 2025, centenário de sua morte.

Alfredo Frassati (1868–1961)

Pai de Pier Giorgio, nasceu em Pollone. Advogado, jornalista e proeminente figura pública italiana, foi o fundador e proprietário do influente jornal La Stampa de Turim. Homem de orientação liberal e agnóstica, serviu como Senador do Reino da Itália e foi nomeado Embaixador da Itália em Berlim (1920–1922). Notabilizou-se por sua firme oposição ao regime fascista de Benito Mussolini, o que o levou a afastar-se do jornalismo por anos. Apenas após a morte de Pier Giorgio e a revelação de suas obras de caridade, Alfredo iniciou um processo de reaproximação com a fé católica.

Adelaide Ametis Frassati (1877–1949)

Mãe de Pier Giorgio, nasceu em Turim. Foi uma reconhecida pintora italiana, cujas obras foram expostas em prestigiadas galerias e eventos artísticos internacionais, como a Bienal de Veneza. Educada no catolicismo tradicional, manteve uma postura rigorosa, elegante e disciplinada na condução da casa e na criação dos filhos, priorizando o cumprimento das convenções sociais da época.

Luciana Frassati Gawrońska (1902–2007)

Irmã caçula de Pier Giorgio (apenas 17 meses mais nova). Formou-se em Direito pela Universidade de Turim. Casou-se em 1925 com o diplomata polonês Jan Gawroński, acompanhando-o em diversas missões pela Europa. Luciana tornou-se uma prolífica escritora e poetisa, além de ter desempenhado papel fundamental durante a Segunda Guerra Mundial no auxílio à resistência polonesa. Foi a principal preservadora da memória de Pier Giorgio, reunindo diários, cartas e depoimentos que fundamentaram o processo de beatificação e originaram a Positio Super Virtutibus.

Referência Bibliográfica

  • SACRA CONGREGATIO PRO CAUSIS SANCTORUM.Taurinen. Canonizationis Servi Dei Petri Georgii Frassati, Juvenis Saecularis (1901-1925): Positio Super Virtutibus. Roma: Tipografia Guerra, 1977. 2 vol.
    • Vol. I: Informatio et Summarium (Análise jurídica/teológica e depoimentos das testemunhas oculares).
    • Vol. II: Documenta et Novae Testimonianze (Correspondências, diários, registros acadêmicos e estudo histórico-crítico).

Pier Giorgio Frassati e a Eucaristia.

Jesus me faz uma visita todas as manhãs na Santa Comunhão; eu a retribuo visitando os seus pobres.

Pier Giorgio Frassati

Introdução

Para o jovem turinense Pier Giorgio Frassati (1901–1925), a Eucaristia não representava um mero rito formal ou uma obrigação dominical cumprida por hábito social. Pelo contrário: era o coração pulsante de sua existência, o combustível da sua alegria radiante e a raiz invisível que sustentava suas árduas rotinas universitárias, sua paixão pelas montanhas e sua impressionante entrega aos desvalidos de Turim.

Em uma vida de apenas 24 anos, Pier Giorgio demonstrou que a santidade no meio do mundo não é uma abstração inacessível, mas a consequência natural de uma união profunda com Cristo na Eucaristia. Para compreender a gênese dessa espiritualidade, as memórias familiares de sua irmã, Luciana Frassati, a rigorosa pesquisa histórica de Carla Casalegno e os estudos contemporâneos do pesquisador Eduardo Henrique da Silva oferecem as chaves de leitura essenciais.

1. O Centro do Dia: A Eucaristia na Perspectiva de Luciana Frassati

Nas obras de Luciana Frassati — em especial no volume Mio fratello Pier Giorgio: La fede, assim como em I giorni della sua vita —, emerge o retrato sem retoques do jovem leigo no seio da vida familiar.

Luciana documenta com precisão de testemunha ocular o impacto que o sacramento provocava no cotidiano do irmão:

  • A disciplina do amanhecer: Para garantir a participação na Santa Missa diária e a recepção da Comunhão, Pier Giorgio enfrentava horários rigorosos. Em uma época em que o jejum eucarístico exigia a abstenção total de alimentos e água desde a meia-noite, ele levantava-se por volta das 5h30, enfrentando o frio rigoroso do inverno piemontês antes de seguir para o Politécnico de Turim.
  • O recolhimento impressionante: Amigos e familiares citados por Luciana recordam a intensidade da oração de Pier Giorgio após a Comunhão. Imóvel, de joelhos, ele transparecia uma intimidade com o Sagrado que isolava seu espírito de qualquer distração ao redor.
  • A paixão pela Adoração Noturna: Luciana destaca a adesão entusiasmada do irmão às horas de adoração ao Santíssimo Sacramento organizadas pela Ação Católica e pela Ordem Terceira de São Domingos. O jovem atleta, vigoroso e alegre, passava noites inteiras prostrado em oração silenciosa no chão das igrejas de Turim.

Para Luciana, a Eucaristia era o banquete no qual o irmão renovava diariamente a pureza da alma e a coragem moral para resistir às pressões ideológicas e sociais de seu tempo.

2. A Mística da Oração: O Olhar Biográfico de Carla Casalegno

Em seu estudo historiográfico Pier Giorgio Frassati: Una vita di preghiera, a pesquisadora Carla Casalegno analisa a arquitetura espiritual que regia a vida de Frassati, demonstrando que sua atividade frenética de estudos e caridade era resultado direto de uma profunda vida interior.

Casalegno sublinha elementos centrais dessa mística:

  • A Eucaristia como Matriz da Oração: Para Casalegno, a oração de Pier Giorgio não era um exercício isolado, mas uma extensão contínua do Sacrifício do Altar. A recepção da Hóstia Sagrada matinal desaguava na recitação diária do Santo Rosário e na meditação constante das Escrituras e das obras de São Tomás de Aquino e Santa Catarina de Sena.
  • A Altura das Montanhas e o Sacrifício do Altar: Casalegno evidencia que as famosas excursões aos Alpes não eram meras evasões esportivas. Pier Giorgio organizava os itinerários dos grupos de montanhismo priorizando os horários das Missas nos vilarejos alpinos ou solicitando a sacerdotes amigos que celebrassem ao ar livre, unindo a contemplação da natureza à comunhão com o Criador.
  • A Primazia de Deus: A autora documenta episódios em que Pier Giorgio abriu mão de passeios, refeições e confortos pessoais sempre que estes ameaçavam comprometer a recepção digna do Sacramento, comprovando que Cristo era o centro gravitacional de suas decisões.

3. O Circuito do Amor: Da Eucaristia ao Serviço dos Pobres

Tanto o testemunho de Luciana Frassati quanto as análises de Carla Casalegno e Eduardo Henrique coincidem no ponto crucial da santidade de Pier Giorgio: a indissociabilidade entre o Cristo Eucarístico e o Cristo Presente no Pobre.

Ao atuar na Sociedade de São Vicente de Paulo e percorrer os cortiços mais insalubres de Turim, Pier Giorgio não realizava uma simples filantropia secular. Ele vivia uma profunda mística eucarística encarnada:

Primeiramente, na recepção diária do Sacramento do Altar, ocorria a visita de Cristo a Pier Giorgio. Em seguida, essa comunhão transbordava na ação e na liturgia social, em que o jovem retribuía a visita de Cristo ao ir aos barracos e casebres dos necessitados. Por fim, esse movimento gerava um ciclo de amor e transformação, pautado pelo reconhecimento direto da dignidade de Cristo na figura do sofredor.

Como ressalta Eduardo Henrique da Silva em suas pesquisas sobre a difusão da espiritualidade de Frassati, a chave para compreender a coragem com que Pier Giorgio abraçava doentes contagiosos e doava seus próprios bens reside na “visão transfigurada” proporcionada pela Comunhão. Tendo adorado o Corpo de Cristo sob a forma do Pão no altar, o jovem o reconhecia sem hesitação sob os farrapos dos marginalizados.

4. Fundamentação da Conclusão e o Aporte de Eduardo Henrique da Silva

A conclusão de que a Eucaristia é o motor e a razão de ser de toda a ação de Pier Giorgio Frassati encontra sólida sustentação no cruzamento entre as fontes primárias e a historiografia especializada:

Nas obras de Luciana Frassati, como Mio fratello Pier Giorgio: La fede e I giorni della sua vita, encontra-se a fundamentação factual e os registros diários. Ela fornece as memórias da vivência da Missa, da adoração e dos sacrifícios pessoais do irmão.

Nos estudos de Carla Casalegno, como Pier Giorgio Frassati: Una vita di preghiera e Pier Giorgio Frassati, está a análise teórica e histórica. A autora sistematiza a vida de oração do beato, demonstrando como a liturgia eucarística moldou sua espiritualidade leiga.

Por fim, os artigos e pesquisas de Eduardo Henrique da Silva oferecem a síntese e a contextualização contemporânea. O autor aponta o binômio Eucaristia-Pobres como a resposta para o leigo de hoje, articulando como a vida interior gera um impacto social transformador.

Eduardo Henrique da Silva enfatiza que o famoso lema frassatiano Verso l’Alto (“Para o alto”) não se limita a um chamado à coragem esportiva ou ao otimismo humano, mas representa o movimento da alma alimentada pela Eucaristia, que busca continuamente as coisas do Alto para transformar a realidade da terra.

Conclusão

Pier Giorgio Frassati faleceu precocemente aos 24 anos, vítima de uma poliomielite fulminante contraída no contato direto com os doentes que servia. Seu funeral, povoado por milhares de pobres de Turim que surpreenderam a própria família abastada ao revelarem a extensão de sua caridade, foi a manifestação visível da colheita de uma vida semeada no altar.

As obras de Luciana Frassati, os estudos de Carla Casalegno e a divulgação realizada por Eduardo Henrique da Silva convergem na mesma verdade: o segredo da vida luminosa de Pier Giorgio esteve sempre guardado no Tabernáculo. A Eucaristia não o retirou do mundo, mas o lançou para o centro da história com um amor capaz de vencer o egoísmo, tornando-o um modelo perene de jovem que fez da fé uma celebração viva e da vida uma contínua comunhão.

Referências Bibliográficas

  • CASALEGNO, Carla. Pier Giorgio Frassati: Una vita di preghiera. Milão: Effatà Editrice, 2004.
  • CASALEGNO, Carla. Pier Giorgio Frassati. Roma: Edizioni San Paolo, 2013.
  • FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio: La fede. Roma: Edizioni Studium, 1984.
  • FRASSATI, Luciana. Pier Giorgio Frassati: I giorni della sua vita. Milão: Le Monnier, 1978.
  • SILVA, Eduardo Henrique da. Artigos, ensaios e estudos sobre a vida e espiritualidade do Beato Pier Giorgio Frassati. São Paulo: Divulgação do Portal Oficial Pier Giorgio Frassati Brasil.

O “Santo da Estrada” Amigo dos Pobres

Giulio Loccatelli

Mais que na inquieta atmosfera de sua poesia, a Senhora Luciana Frassati soube encontrar, na aflição de seu espírito, um porto seguro e sereno, revivendo em si própria, e fazendo com que muitos outros revivessem, a recordação daquele seu prediletíssimo irmão Pier Giorgio, primeiramente com a publicação de um notável epistolário e agora com uma obra toda original e inédita, que vem a colocar um áureo sigilo à sua admirável e continuada fadiga de mais de um ano de pesquisa e investigações nos mais diversos ambientes de Turim. Tratava-se de salvar um precioso patrimônio procurando as testemunhas de mais de trinta anos atrás, que tiveram uma certa familiaridade com o jovem aluno do Politécnico e que poderiam depor, como por uma atitude sagrada, sobre a sua multiforme atividade de herói da caridade cristã. Tarefa árdua e certamente mais apropriada a ‘fortes ombros’ que ao empenho de uma mulher, mesmo que de máxima boa vontade, que não fosse a bondosa irmã, paciente e tenaz até o sacrifício, da singela estirpe dos Frassati. Passo após passo, mesmo atrás de tênues vestígios de um nome, ei-la a reconstruir todo um longo itinerário de amor atrás das pegadas daquele irmão: pelas salas universitárias, dentro das lojas, ao longo dos corredores dos hospitais e das internações, nos escritórios dos homens de cultura, nos conventos, nas guaritas dos edifícios, nos gélidos telhados, onde quer que alguém pudesse dizer algo sobre ele no exercício preferido de ajuda aos que sofrem, aos desprezados da sociedade. Que itinerário precioso e qual revelação! Vieram à tona centenas de particulares ignorados e agradabilíssimos, todos autênticos e destinados a serem minuciosamente lidos e meditados, não somente por aqueles que nas Conferências de São Vicente de Paula, onde Pier Giorgio encontrou a sua apaixonada palestra cotidiana, dedicam-se de maneira especial ao exercício da caridade.
Refletindo um pouco mais, parece que a Senhora Luciana imitou o postulador da causa de um Bem-aventurado no recolher tão minuciosa messe de vivas documentações, muitas vezes esquelética, e por isso, eficacíssimas em sua concisão e sinceridade. Alguém disse que o jovem “tinha todos os requisitos para ser um santo: amor a Deus e amor ao próximo.” Um outro adicionou: “A sua virtude pareceu-me sempre heróica. Sabia-se que pertencia a uma das famílias mais abastadas de Turim e vinha até nós unir-se aos pobres, escondendo sempre aquilo que fazia de bem. Para nós Pier Giorgio era um santo.” Mas um santo alegre, animado, de larga visão, amante das escaladas em montanhas, que “fazia o bem pela alegria de fazê-lo” e que mostrava-se habitualmente “preocupado com a miséria e a necessidade dos humildes. De fato, era uma exigência sua sê-lo – assim diz Paolo Gandi –e não uma atitude de sua própria vontade.” Aos seus encontros quase diários com a caridade – era assíduo do Cottolengo, do leprosário, das Pequenas Irmãs – apresentava-se de maneira senhoril e, ao mesmo tempo, desembaraçado, alegre, cortês. Bastava olhar, para ver com que graça materna acariciava as crianças pobres e esfarrapadas, e como, entrando nos casebres da periferia de sua Turim, logo tirasse o chapéu e estendesse amigavelmente a sua mão àqueles que vinham-lhe ao encontro temorosos: aquelas pessoas quase nunca vieram a saber quem fosse aquele distinto senhor que sentava-se no leito dos doentes e tomava nota de todas as necessidades da família.
Há quem se recorde, com comoção, de como ele sabia submeter-se, sem demonstrar o mínimo embaraço, aos mais baixos trabalhos de assistência, até mesmo higiênicos – a epidemia de 1918 multiplicou tais atos exemplares ao infinito – rico de todas as formas de caridade, ao dizer do Frei Giocondo: “da palavra ao gesto que conforta até ao ponto de ajudar-te a descer um degrau, manifestação e forma dificilíssima arriscando, a cada momento, de cair em uma etiqueta superficial.”
De resto, tendo aprendido ainda criança, quando, não tendo outra coisa, tirou os sapatos e as meias para dá-los em esmola, Pier Giorgio obedecia ao difícil mandamento a ser realizado: “em todos os momentos estar ao seviço dos pobres.”
Graciosíssimos episódios referem-se a Pier Giorgio em seu transformar-se, várias vezes, – a propósito tem quem o definiu muito bem – em uma “sucursal de agência de transportes” e carregando-se de pacotes e lenha, como um animal de carga (é a observação de Camilla Rivetti) atravessando, sob aqueles trajes de carregador, as ruas principais, sem olhar a ninguém. Um dia o redator do “Stampa” admirou-se ao vê-lo puxando um carrinho pela rua: fez de conta de nada, mas depois ao reencontrá-lo na redação do jornal de seu pai pediu explicação. “Como? Não viu? – responde sagazmente Pier Giorgio – Aquele pobre velho que não aguentava puxá-lo em meio à gente?”
Esse puxar carinhos, seja para transportar coisas a serem entregues nos dias de visita, seja para ajudar aos pobrezinhos que tivessem que desalojar os utensílios de suas pequenas habitações, é um dos aspectos mais característicos do ânimo piedoso de Frassati contra o respeito humano, em uma sincera independência de caráter, ao ponto de ser chamado por Giovanni Grippa de “o santo da estrada”. Precisava tê-lo visto nos dias próximos ao Natal e à Páscoa: documentam as testemunhas que a sua atividade tornava-se “frenética”: pacotes sobre pacotes, frascos de vinho, peças de vestuário, roupas, Pier Giorgio transformava-se em um armazém ambulante, o contente carregador dos indigentes.
No Natal de 1924, assumiu sozinho a tarefa de socorrer nove famílias. Quem o aconselhava de usar, para as viagens, que na maiorias das vezes eram longas, o automóvel da casa, teve por resposta que seria um humilhar os pobres: andava, portanto, sempre a pé, dando de esmolas o dinheiro que guardava para tomar o bonde.
Seria, agora, um alongar-se demais enumerar as taxas escolares, as contas de gás, as receitas médicas com as suas “entradas”, certamente não tão elevadas, sem contar o enorme acúmulo de correspondências para procurar empregos, para recomendar todos aqueles que a ele recorriam confiantes naquele acolhedor convite. Ele não tinha hesitações para com eles e se, por acaso, percebia que certas pessoas que viviam na miséria não estavam realmente dispostas a procurar um trabalho e ali permanecer, cortava o assunto dizendo que “a caridade é sempre bem feita e sempre pronta a produzir os seus frutos, mesmo que se as pessoas que a recebem ou as que a exercitam não sejam dignas.”

“Il Giornale d’Italia”, 28 de fevereiro de 1952.

A Mística da Ação em Pier Giorgio Frassati

Eduardo Henrique da Silva

Introdução

​A virtude da caridade, frequentemente reduzida ao assistencialismo superficial, encontra em Pier Giorgio Frassati (1901–1925) uma redefinição radical. Longe de ser um passatempo burguês para aliviar a consciência, a caridade para Frassati era o motor de sua própria existência, uma necessidade vital nascida do encontro diário com Cristo na Eucaristia. Como observa Eduardo Henrique da Silva em seus estudos sobre a juventude católica do início do século XX, “Pier Giorgio não levava aos pobres apenas o pão ou o casaco que faltavam; ele entregava a si mesmo, reconhecendo na carne sofredora dos marginalizados o próprio rosto de Deus”.

​Este artigo analisa a profundidade dessa ação caritativa a partir das principais obras biográficas italianas e das próprias cartas de Frassati, demonstrando que seu legado permanece como um farol de autêntica mística social.

​A Caridade como Segredo Oculto: A Perspectiva de Luciana Frassati

​Sua irmã, Luciana Frassati, na obra fundamental Mio Fratello Pier Giorgio: La Carità, reconstrói com precisão os passos silenciosos do irmão pelas periferias de Turim. O traço mais marcante da caridade de Pier Giorgio era o absoluto segredo. Vindo de uma das famílias mais influentes da Itália — seu pai era o fundador do jornal La Stampa e embaixador —, ele escondia suas renúncias para que os pais não interceptassem suas doações.

​Luciana relata que, após a morte prematura do irmão devido a uma poliomielite fulminante, a família ficou chocada ao ver milhares de pobres e deserdados lotando as ruas para o funeral. Ela escreve:

​”Nós não sabíamos quase nada. Ele vivia duas vidas: uma em nossa casa, com nossas regras e exigências sociais, e outra nas casas em ruínas, nos cortiços onde a miséria humana gritava por socorro. Ali, ele era o verdadeiro Pier Giorgio.”

(FRASSATI, Luciana. Mio Fratello Pier Giorgio: La Carità)

​Uma Vida Consumada no Amor: A Análise de Carla Casalegno

​Na biografia Pier Giorgio Frassati: Una vita di Carità, Carla Casalegno aprofunda-se na rotina espiritual que sustentava essa entrega. A autora demonstra que a atividade social de Frassati na Conferência de São Vicente de Paulo não era fruto de mero ativismo político ou social, mas o transbordamento de sua vida de oração.

​Casalegno pontua como ele utilizava seu próprio dinheiro de estudante, vendendo passagens de trem ou andando a pé para economizar o valor do bonde e revertê-lo aos necessitados. Para Pier Giorgio, a caridade exigia o despojamento completo. Ele afirmava textualmente em suas correspondências o valor espiritual desse serviço:

​”Jesus me visita na Sagrada Comunhão todos os dias, e eu a retribuo da forma miserável que posso, visitando os pobres de Turim.”

(FRASSATI, Pier Giorgio. Cartas)

​O Amigo dos Últimos: A Visão de Primo Soldi

​Padre Primo Soldi, em sua obra Pier Giorgio Frassati: L’amico degli ultimi, destaca o caráter relacional e empático da caridade do jovem turinense. Frassati não jogava a esmola de longe; ele entrava nas casas infectas, sentava-se à cama dos doentes, contraindo inclusive a doença que o mataria aos 24 anos.

​Soldi argumenta que Pier Giorgio subverteu a lógica de sua classe social ao se tornar genuinamente um “amigo” dos marginalizados, tratando-os com a dignidade devida a príncipes. Nas palavras de Soldi:

​”Ele não via o pobre como um objeto de piedade, mas como um mestre. Diante dos ‘últimos’, Pier Giorgio tirava o chapéu, inclinava-se e servia com a reverência de quem está diante de um altar.”

(SOLDI, Primo. Pier Giorgio Frassati: L’amico degli ultimi)

​A Mística da Ação: As Cartas de Frassati na Análise de Eduardo Henrique da Silva

​O pensamento de Eduardo Henrique da Silva corrobora essa visão ao analisar as mensagens e o testemunho epistolar de Pier Giorgio em seus artigos de pesquisa histórica. Em uma de suas cartas mais célebres, escrita a membros da Federação Universitária Católica Italiana (FUCI), Frassati resume a indissociabilidade entre fé e ação social:

​”A caridade não é suficiente: precisamos de uma reforma social. Mas sem a caridade, as leis humanas são frias e estéreis… O apelo de Cristo nos obriga a não sermos meros espectadores da dor alheia.”

(FRASSATI, Pier Giorgio. Carta aos estudantes da FUCI)

​Silva demonstra em suas publicações que essa percepção coloca Frassati como um precursor da Doutrina Social da Igreja vivida no cotidiano juvenil, unindo a crueza da realidade política de sua época (marcada pela ascensão do fascismo) à pureza do Evangelho.

​Conclusão

​A caridade de Pier Giorgio Frassati não pode ser interpretada como um sentimentalismo vago ou um moralismo estático. Ela foi o ápice de uma existência integrada, onde o alpinismo, os estudos de engenharia de minas, a militância política e as visitas aos cortiços faziam parte do mesmo ecossistema espiritual. Baseado no testemunho ocular de Luciana Frassati, no rigor histórico de Carla Casalegno e na sensibilidade pastoral de Primo Soldi, conclui-se que Pier Giorgio revolucionou o apostolado leigo ao provar que a santidade é perfeitamente viável na juventude, sem que para isso seja necessário isolar-se do mundo.

​Sua morte trágica e prematura foi o selo de sua doação total: morreu da mesma paralisia que assolava as famílias pobres que ele abraçava. Pier Giorgio Frassati permanece vivo não como uma memória estéril, mas como um chamado urgente à ação concreta e transformadora.

​Bibliografia Consultada

  • CASALEGNO, Carla. Pier Giorgio Frassati: Una vita di Carità. Torino: Effatà Editrice, 2005.
  • FRASSATI, Luciana. Mio Fratello Pier Giorgio: La Carità. Milano: Vita e Pensiero, 1960.
  • SILVA, Eduardo Henrique da. “A Mística dos Olhos Abertos: Frassati, La Pira e a Construção da ‘Cidade dos Homens’ à Luz da Doutrina Social da Igreja”. Portal Oficial Pier Giorgio Frassati Brasil, 2026.
  • SILVA, Eduardo Henrique da. “A Caridade em Tempos de Guerra: Como o Legado de Pier Giorgio Inspirou a Coragem de sua Irmã”. Portal Oficial Pier Giorgio Frassati Brasil, 2026.
  • SOLDI, Primo. Pier Giorgio Frassati: L’amico degli ultimi – Testimonianze e Spiritualità. Torino: Elledici , 2004.

Pier Giorgio Frassati, o tempo e as férias.

Rocco D’Ambrosio*

Não apenas engajamento político e antifascismo. Este jovem de Turim tinha ideias muito claras, uma espiritualidade profunda, um coração grande e um intelecto vigilante. Fé rara, ontem como hoje.

Chamavam-no de o “estudante que está sempre correndo”: Pier Giorgio Frassati (1901-1925) foi um jovem de Turim de uma rara riqueza humana e cristã. A sua foi uma vida vivida em plenitude, apesar da brevidade. Seus parcos vinte e quatro anos foram um riquíssimo mosaico de atividades: desde a rica experiência familiar à escolha universitária na faculdade de engenharia de minas, do engajamento social e voluntariado à madura atividade política de matriz sturziana e antifascista, até a adesão a grupos eclesiais. E tudo em continuidade, porque Pier Giorgio não buscou evasões nem distrações (as quais ele podia pagar) para se sentir vital, mas tudo tinha valor porque as escolhas fundamentais eram claras. Agora que, após a pandemia, temos tanta vontade de evadir, a pergunta sobre as escolhas fundamentais faz todo o sentido.

O seu correr era totalmente voltado para amar e assistir melhor os pobres. Ele escreveu em 1925: “A Caridade, sem a qual, diz São Paulo, nenhuma outra virtude vale. Ela sim pode servir de guia e direção para toda a vida, para todo um programa. Ela, com a Graça de Dio, pode ser a meta à qual a minha alma pode aspirar. E então, num primeiro momento, ficamos desanimados, porque é um programa belo, mas duro, cheio de espinhos e de poucas rosas, mas confiamos na Providência Divina e na Sua Misericórdia”. A plenitude do tempo para Pier Giorgio era gastar-se pelos outros. Disso ele conhecia muito bem os muitos espinhos e as poucas rosas. Não se pode esquecer que Pier Giorgio amadurece essa vocação em um ambiente urbano hostil à fé e em uma comunidade cristã nem sempre à altura da sua missão. “Certas conferências de São Vicente — diria Frassati — eu aboliria. Quando existem homens que, mesmo cheios de zelo cristão, preferem desistir diante das dificuldades, é melhor que a conferência não exista”. Não há nada de filantrópico ou decadente em seu amor pelos últimos. Ele conhece os pobres e o cheiro deles, ajuda os amigos a superá-lo, anda sempre sem dinheiro porque nunca diz não a quem precisa. Engaja-se no PPI (Partido Popular Italiano) de Sturzo e professa uma fé popular e democrática com a mesma coerência moral e paixão com que serve aos últimos. Pier Giorgio, desde o início, é “visceralmente antifascista”, diria sua irmã, a ponto de preferir, de certa forma, os comunistas: “Estes agem para elevar a classe operária — diria ele —, mas os fascistas, que ideais têm? O vil dinheiro!”. Não adere ao fascismo nem mesmo quando este se mostra (falsamente) religioso. Para ele, fascismo e cristianismo continuam incompatíveis; por esse motivo, condena como traidores todos aqueles padres e leigos que aderem ao Fascio. É o Frassati de ideias muito claras, de espiritualidade profunda, de coração grande e intelecto vigilante que é sempre e em toda parte ele mesmo. Sem interrupção. Fé rara, ontem como hoje. Especialmente se pensarmos que várias biografias de Frassati trazem apenas referências rápidas e banais ao seu engajamento político e antifascista, bem como aos seus amores juvenis. Não é de se surpreender: é o falso moralismo católico burguês que, à distância de um século, continua a propor modelos de um catolicismo desincorporado, frequentador dos poderosos e de seus negócios políticos e econômicos, pronto apenas para condenar quem defende os últimos, a milhas de distância de sentir o cheiro deles. Não se trata simplesmente de ser a favor ou contra o Papa Francisco; é a desnaturação da fé e do compromisso cristão, que leva a desvios onde o crer é apenas uma capa ideológica para alguma batalha social ou política, ou, pior, interesses de balcão, entre dinheiro e poder. São os novos “ateus devotos” (B. Andreatta).

Um último aspecto. Frassati sabia bem que esse dedicar-se ao próximo passava por um voltar-se para si mesmo para buscar forças. Daí o amor pelo campo e pela montanha. “A cada dia que passa — declara em uma entrevista em 1921 — me apaixono perdidamente pela montanha. O seu fascínio me atrai”. E mais adiante retorna à necessidade do campo e do isolamento para poder se concentrar. Em outros termos, o tempo de repouso tem valor e consistência apenas se não for uma fuga, mas sim orientado a reencontrar-se, a remotivar-se para viver mais plenamente. Nem sempre é assim conosco: o nosso correr anseia pela pausa mais para esquecer e evadir, e nem sempre para se revigorar, especialmente após (?) a pandemia. Em sua última excursão à montanha, em junho de 1925, ele havia escrito, em uma foto que o retratava enquanto escalava uma rocha, “verso l’alto” (para o alto). Essa grande meta, como escreveu um amigo sobre ele, faz de Pier Giorgio “uma ajuda poderosa para sair da angústia moral do tempo burguês”.

*Doutor em ciências sociais e professor catedrático de Filosofia Política na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Gregoriana em Roma, além de professor de Ética da Administração Pública no Departamento para as políticas do pessoal da administração do Ministério do Interior Italiano

O meu Pier Giorgio Frassati

Gustavo Luigi Furfaro*

Profética soa a frase que se lê sobre o túmulo de Pier Giorgio: “Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?”
Assim como foi a intuição da mãe, Adelaide Ametis, pintora famosa, que quis circundar o caixão de Pier Giorgio com painéis, pintados por ela, nos quais, como que em um simbólico jardim, pintou um ornato de flores e interpretou-o com os dizeres evangélicos das Bem-aventuranças: ao lado de um grande maço de lírios, escreveu: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”; no painel rico de rosas e flores variadas, escreveu: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”; no painel decorado com humildes flores, escreveu: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque serão chamados filhos de Deus”.
No breve espaço de 24 anos, soube testemunhar com intensidade de obras e com heroicidade, que a santidade é patrimônio de cada condição, mesmo lá onde as premissas não parecem ser tão favoráveis. Não teve, seja na família, seja na escola, seja na sociedade que freqüentou, aqueles que poderíamos definir como “pedestais” sobre os quais construir a santidade, como encontra-se em tantas biografias de santos. Em uma plena e sofrida correspondência à ação da graça, que forma o tecido potente de sua construção, soube criar sozinho os degraus para subir, traçar sozinho os seus caminhos. Sabia em quais fontes alcançar o material de construção: na casa de Deus a palavra orientadora, o pão que dá a força, a vigilante presença materna: palavra, pão, presença das quais fazia-se portador pelos caminhos do mundo.
Em um contexto comum a tantos jovens de então, assim como de hoje, levou uma vida não muito comum em certos aspectos. Podem variar as circunstâncias e as situações, não mudam muito as dificuldades a serem superadas. Foi intuição e mérito saber orientar o passo, em seu ambiente, para que a vida tivesse um significado. Revela-nos isso em uma carta a um amigo: “Viver sem uma fé, sem um patrimônio para defender, sem sustentar a verdade em uma luta contínua, não é viver, mas ‘ir vivendo’. Nós não podemos nunca ‘ir vivendo’, mas viver!”
Mesmo que fosse somente essa a sua mensagem, já teríamos algo para o qual sermos atraídos pelo exemplo. Como ideal pode ser assumido por todos: por quem tem vinte anos e por quem tem muito mais. Pode ser uma admoestação e um estímulo para o leigo e para o consagrado; por quem tem grandes capacidades e por quem entende valorizar até mesmo um único talento; para quem tende à ação e para quem, todavia na forçada inércia, tem entre as mãos uma enorme potência redentora. Pier Giorgio é de uma surpreendente atualidade: não é um santo “de altar”, é companheiro de caminhada.
Falando dele surpreendemo-nos a usar uma terminologia atual: falamos de família em crise, de escola em agitação, da sociedade em evolução com os ricos demais e os extremamente pobres, de associacionismos que empenham ou então falem, de amizade que eleva ou degrada, de tempo livre que constrói ou destrói. Em sua vida existem todos esses elementos: nele descobrimos as soluções positivas.
É por esse motivo que o sentimos tão próximo, o nosso orar não é tanto uma súplica, mas um diálogo com ele, que ainda nos fala através das numerosas e reveladoras cartas e através dos exemplos, para aprender de sua “sabedoria de Deus”, acolhida e cultivada na união com Cristo palavra e pão, ainda antes que na “ciência de Cristo”; para aprender uma via que se torne testemunho de cada dia e força transformadora da realidade cotidiana.
Foi saldo na fé e operoso no amor. Quanto mais aprofunda-se, não somente o conhecimento de sua vida, mas sobretudo a profundidade dos seus sentimentos, tanto mais se sente a atração desse jovem e, em sua companhia, parece que avançamos mais seguros, mais serenos, mais generosos, como acontecia nos tempos de suas memoráveis excursões e passeios nos campos.
Foi um magnífico “lutador paulino”, um autêntico contestador que sofria as conseqüências na própria pele, porque contestava por amor, nunca por aversão ou por rancor. Combateu para construir, nunca para destruir; lutou para edificar, nunca para abater. E quem contesta e sofre na pele as conseqüências tem algo de heróico, algo daquele heroísmo evangélico que Jesus nos apresenta em sua vida e em sua palavra.
Lutou, contestou, sofreu as conseqüências na família, na sociedade, nas associações, na política, com os amigos, na escola. Simpáticas foram também suas vicissitudes na escola: era o aluno Frassati, não o filho do senador, que era julgado como promovido. A sua trajetória escolar não foi fácil e, talvez, não compreendida: também aqui lutou e sofreu na própria pele se, aos 24 anos, encontrou-se concluindo o Politécnico, não fácil, depois de ter feito 31 exames. Faltavam-lhe ainda dois exames para fazer e também a tese, na qual já estava pensando. O último exame seria em 4 de maio de 1925: tecnologia minerária, o ideal contrastado do seu futuro. Não pode fazê-lo: durante dois meses lutou e sofreu as conseqüências na própria pele também na morte. Paradoxalmente podemos dizer que teve tal destino também nos alternados acontecimentos do processo de beatificação e na própria morte subverteu as leis da dissolução.
E tudo foi sempre com um sorriso nos lábios, mesmo que se por dentro – e as cartas o confirmam em vários pontos – tumultuava a tempestade no mar e de vez em quando brotavam algumas lágrimas. Na própria morte respondeu com o sorriso (após 56 anos!) a quem dele se aproximou. Sobre ele muita coisa foi escrita: são mais de dois mil artigos de jornais e de revistas em todo o mundo sobre ele, aos quais somam-se outras publicações, comemorações… A sua figura conquistou almas de adolescentes e de homens maduros em todas as partes do mundo. À sua vida e ao seu exemplo inspiraram-se jovens que não somente quiseram conhecê-lo, mas que, no empenho de imitá-lo, realizaram também eles um empenho de santidade e agora estão a caminho da glorificação. Pier Giorgio cumpriu o empenho que o Concílio Vaticano II confia aos leigos: “A todos os leigos, portanto, incumbe o plecaro ônus de trabalhar para que o plano divino de salvação atinja sempre mais a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares da terra.” (LG 33).

* Irmão das Escolas Cristãs foi vice postulador no processo de beatificação.

25 outubro de 1919, + 10 Julio 1996

Testemunho: vida de Frassati deixou rastro que aponta “para o Alto”

quinta-feira, 4 de setembro de 2025, 11h55 

Responsável pelo site oficial de Pier Giorgio Frassati no Brasil, Eduardo Henrique destaca força do testemunho de vida do jovem que levou muitos outros ao caminho de santidade

Kelen Galvan

Fraternidade Frassati
Fraternidade Frassati

Um jovem que se tornou padroeiro dos esportistas e alpinistas, além de ser declarado padroeiro da Juventude Vicentina: Pier Giorgio Frassati será canonizado neste domingo, 7, pelo Papa Leão XIV, no Vaticano, juntamente com Carlo Acutis. Apesar de ter vivido há mais de um século e ter falecido com apenas 24 anos, Frassati deixou um grande legado para a juventude. 

“Um exemplo a ser imitado e um amigo para se familiarizar”, disse o Papa João Paulo II aos jovens no dia da beatificação de Pier Giorgio, em 20 de maio de 1990

O responsável pelo site oficial de Pier Giorgio no Brasil, Eduardo Henrique da Silva, que também é professor universitário e leigo consagrado passionista, destaca que Frassati foi um jovem de personalidade profundamente íntegra e, ao mesmo tempo, muito determinado, marcante e imponente.

“Ele não se deixou aprisionar a uma única área da vida: foi esportista apaixonado pelo montanhismo e pelo esqui, estudante aplicado de Engenharia de Minas, engajado em debates sociais e políticos, membro ativo da Ação Católica e associações caritativas ligadas à Igreja, além de ter sido um fervoroso leigo dominicano”, exemplifica.

Ele recorda que Frassati foi um jovem que fez política como orienta a Doutrina Social da Igreja e que não tinha medo de se envolver nas causas sociais quando o objetivo era o bem comum.

“O que une todas essas áreas – tão distintas à primeira vista – era o seu testemunho de coerência entre fé e vida (…) o beato Frassati soube viver o Evangelho no esporte, na universidade, na política, no cuidado com os pobres e na espiritualidade. Por isso, tornou-se referência para jovens atletas, estudantes, políticos e leigos engajados. Ele mostra que a santidade não se restringe a um setor específico, mas pode iluminar e transitar em todos os âmbitos da vida”.

Inspiração para outros

Apesar de curta, a vida de Frassati foi tão intensa que deixou um rastro de esperança e um sinal que aponta “para o Alto”. Muitos foram alcançados pela força de seu testemunho e afirmaram, em diários e cartas, que o exemplo de Pier Giorgio os levaram a “uma mudança de vida radical”, recorda Eduardo. 

“No seu seguimento podemos destacar o Beato Alberto Marvelli, e homens que exerceram grande atividades na sociedade, entre eles destacamos: Giuseppe Lazzati, político e reitor na Universidade Sacro Cuore di Gesù em Milão; Giorgio La Pira, prefeito de Florença, que está em processo de beatificação”, cita.

Eduardo conta que ele mesmo foi alcançado pelo testemunho de Pier Giorgio. Conheceu o beato quando tinha 14 anos através de uma estampa. O sorriso daquela foto o instigou a querer saber mais sobre o beato. Começou a pesquisar, até que chegou ao cardeal Dom Paulo Evaristo, que o colocou em contato com o cardeal de Turim, cidade onde o beato viveu. Depois, com a irmã de Pier Giorgio, Luciana Frassati Gawronska, e a sobrinha de Pier Giorgio, Wanda Gawronska, com quem cultiva um estreito laço de amizade e gratidão. “Com o entusiasmo de torná-lo conhecido surgiu a ideia da criação do site, que já está há 15 anos no ar”.

Um jovem que se tornou padroeiro dos esportistas e alpinistas, além de ser declarado padroeiro da Juventude Vicentina: Pier Giorgio Frassati será canonizado neste domingo, 7, pelo Papa Leão XIV, no Vaticano, juntamente com Carlo Acutis. Apesar de ter vivido há mais de um século e ter falecido com apenas 24 anos, Frassati deixou um grande legado para a juventude. 

“Um exemplo a ser imitado e um amigo para se familiarizar”, disse o Papa João Paulo II aos jovens no dia da beatificação de Pier Giorgio, em 20 de maio de 1990

O responsável pelo site oficial de Pier Giorgio no Brasil, Eduardo Henrique da Silva, que também é professor universitário e leigo consagrado passionista, destaca que Frassati foi um jovem de personalidade profundamente íntegra e, ao mesmo tempo, muito determinado, marcante e imponente.

“Ele não se deixou aprisionar a uma única área da vida: foi esportista apaixonado pelo montanhismo e pelo esqui, estudante aplicado de Engenharia de Minas, engajado em debates sociais e políticos, membro ativo da Ação Católica e associações caritativas ligadas à Igreja, além de ter sido um fervoroso leigo dominicano”, exemplifica.

Ele recorda que Frassati foi um jovem que fez política como orienta a Doutrina Social da Igreja e que não tinha medo de se envolver nas causas sociais quando o objetivo era o bem comum.

“O que une todas essas áreas – tão distintas à primeira vista – era o seu testemunho de coerência entre fé e vida (…) o beato Frassati soube viver o Evangelho no esporte, na universidade, na política, no cuidado com os pobres e na espiritualidade. Por isso, tornou-se referência para jovens atletas, estudantes, políticos e leigos engajados. Ele mostra que a santidade não se restringe a um setor específico, mas pode iluminar e transitar em todos os âmbitos da vida”.

Inspiração para outros

Apesar de curta, a vida de Frassati foi tão intensa que deixou um rastro de esperança e um sinal que aponta “para o Alto”. Muitos foram alcançados pela força de seu testemunho e afirmaram, em diários e cartas, que o exemplo de Pier Giorgio os levaram a “uma mudança de vida radical”, recorda Eduardo. 

“No seu seguimento podemos destacar o Beato Alberto Marvelli, e homens que exerceram grande atividades na sociedade, entre eles destacamos: Giuseppe Lazzati, político e reitor na Universidade Sacro Cuore di Gesù em Milão; Giorgio La Pira, prefeito de Florença, que está em processo de beatificação”, cita.

Eduardo conta que ele mesmo foi alcançado pelo testemunho de Pier Giorgio. Conheceu o beato quando tinha 14 anos através de uma estampa. O sorriso daquela foto o instigou a querer saber mais sobre o beato. Começou a pesquisar, até que chegou ao cardeal Dom Paulo Evaristo, que o colocou em contato com o cardeal de Turim, cidade onde o beato viveu. Depois, com a irmã de Pier Giorgio, Luciana Frassati Gawronska, e a sobrinha de Pier Giorgio, Wanda Gawronska, com quem cultiva um estreito laço de amizade e gratidão. “Com o entusiasmo de torná-lo conhecido surgiu a ideia da criação do site, que já está há 15 anos no ar”.

Assim o então Cardeal Karol Woytila, futuro Papa João Paulo II, se referiu a Pier Giorgio Frassati em uma exposição sobre ele na Cracóvia. Eduardo destaca que, no contexto evangélico, as “bem-aventuranças” são o ápice de quem realiza a vontade de Deus.

“Nesse sentido, Pier Giorgio viveu na íntegra as bem-aventuranças, era puro de coração, afável, pacificador, faminto por justiça e perseguido por ela. Ele era conhecido pelo seu amor aos pobres, consolando os sofredores e agindo em prol da justiça, tudo isso com a alegria de um filho de Deus”, comenta.

«Podemos também nos perguntar se temos a coragem de aceitar em nossa vida um amigo tão especial, que se chama Jesus, que nos prometeu ser nosso amigo, que deu a sua vida e que transformou a vida de São Pier Giorgio Frassati; e pode transformar também a sua e te dar coragem, quando a mochila estiver cheia apenas de coisas cansativas, para dar mais um passo à frente e fazê-lo junto com os seus amigos» (mons. Giraudo, 2 de julho de 2026) II Frassati Day ( Torino)

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